
A AbraEAD 2008 (Anuário Brasileiro Estatístico de Educação Aberta e a Distância) mostra em números preliminares que em dois anos praticamente dobrou o número de alunos de graduação na EAD. Dos 397 mil matriculados em 2007, o Brasil saltou para 761 mil estudantes em cursos na modalidade no ano passado.
Tal dado revela que, mais que simples moda, a tendência de crescimento veio para ficar. Por isso, também aumentam as preocupações com os rumos dessa evolução. Estará a quantidade devidamente acompanhada da qualidade? A avaliação do conhecimento adquirido pelos alunos ainda alimenta boa parte da dose de preconceito e desconfiança que pesa sobre a EAD.
Um dos fundadores do Cederj, consórcio que reúne as universidades públicas do Rio na oferta de cursos semi-presenciais, o professor Zacarias Gama tem seu foco de ação voltado justamente para o processo de aferir o aprendizado. Na verdade, é avaliador de educação a distância do Ministério da Educação, missão que o leva a visitar instituições espalhadas por todo o país.
Nessas viagens, se depara com muitas experiências interessantes no campo da EAD. E, é evidente, algumas outras más, que tanto colocam em xeque a seriedade da modalidade de ensino. Mesmo dentro de seu local de trabalho, a Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), nem todos apostam na eficiência dessa prática de ensino. "Aqui na universidade temos professores doutores extremamente resistentes à educação a distância. Eles têm lá as suas razões, mas também têm um grande desconhecimento de como a coisa se dá na prática.
Executada de forma responsável e planejada, a EAD se revela uma modalidade não apenas viável, mas de bastante credibilidade", conclui ele, que é formado em História, além de mestre e doutor em Educação.
Folha Dirigida - O ponto mais nebuloso da educação a distância é mesmo a avaliação. Há o que temer quanto a eficácia e seriedade deste processo? No que se difere, ou deveria se diferenciar, a avaliação de um estudante matriculado em curso presencial de outro que estuda na modalidade EAD?
Zacarias Gama - Inicialmente não tem muita diferença, não. Pelo contrário, está havendo uma defasagem grande entre a avaliação a distância e a avaliação presencial. Eu diria que, na avaliação presencial, há um determinado avanço. No modelo a distância ela sofre algumas limitações do próprio computador. As pessoas às vezes não sabem usar todos os recursos, todas as ferramentas. Há uma tendência grande de se reproduzir algumas avaliações quantitativas, típicas de salas de aula, via EAD. Há muita coisa boa dos referenciais positivistas, tecnicistas. O subjetivismo também tem seu valor, as provas abertas, redações, dissertações são ótimas. Mas é preciso verificar qual concepção de mundo está sendo trabalhada. A questão não está no instrumental, e sim na teoria. A escola, sobretudo voltada para as classes populares, precisa trazer critérios que permitam a sua leitura particular de mundo. Se ela for burguesa, pode usar qualquer instrumento, para manter o sistema. Gostaria que as avaliações sempre permitissem a objetividade da classe popular. Tenho essa utopia.
Então, é preciso, antes do modelo em si, repensar o papel da avaliação?
Precisamos discutir a avaliação da perspectiva da classe dominada. Ainda temos um modelo que é referendar certos valores e conhecimentos da classe dominante. Avaliar é qualificar os conhecimentos aprendidos pelo aluno, mas é sempre no sentido da reprodução de quadros já existentes. Seria interessante se as escolas estivessem mais preocupadas com um entendimento melhor da avaliação. Isso vai depender da opção que o professor faça.
Quais cuidados o professor deve ter neste processo?
Essa avaliação na EAD deve ser mais próxima, muito processual, feita à miúde. No presencial, tendo conhecimento físico do meu aluno, eu disponho de mais critérios que me levem a ter mais ou menos credibilidade em relação a ele. Se ele está atento ou disperso, sua expressão facial, seu comportamento... Tudo isso me dá informações, pistas, sobre quem ele é. No modelo a distância, o professor deve tomar alguns cuidados, como estar mais ligado na construção do instrumento de avaliação. Colocar em xeque não só os saberes que considera necessários, mas a articulação de idéias e a consistência teórica do aluno, investigar sempre o seu referencial teórico. Saber se, de fato, ele está construindo um pensamento e uma escrita em nível acadêmico. É preciso desenvolver o seu potencial.
Há outros modelos possíveis de avaliação?
No Brasil, é muito forte a tendência das teorias de avaliação relacionadas com competência e habilidade, consideradas hoje indispensáveis para a maior realização do capital. Mas isso é um reducionismo. A escola deixa de se preocupar com a auto-formação do aluno, para diversos projetos, permitindo que ele faça escolhas próprias, para impor um único destino em nome do capital. A EAD, na verdade, dá grande liberdade, autonomia e estimula uma postura pró-ativa do aluno, a ponto de já aceitar ações de auto-avaliação dos estudantes.
A questão do copiar e colar da internet, quando da elaboração dos trabalhos. Como combater essa prática?
É óbvio que existe cópia de trabalhos. Há muito tempo, mas não foi a EAD quem inventou isso. Além do que, há uma proliferação de profissionais e de escritórios que ajudam o aluno a tapear os professores. Fazem a monografia, a dissertação, a tese inteira. Há como controlar isso, sim. Começa pelo cuidado na construção do instrumental, exigindo uma certa circunscrição do pensamento e da reflexão ao que está sendo trabalhado naquele módulo, naquele momento. Se o aluno está fazendo uso da bibliografia e o modo como ele utiliza esse material. Na EAD, todas as atividades e ações ficam registradas. Basta acompanhar o processo como um todo, e não apenas avaliar o produto final.
Ainda há alunos que se inscrevem em cursos a distância atraídos pela falsa tese de que ali tudo será mais fácil, menos rigoroso?
É claro que existe reprovação na educação a distância. Aliás, há muita evasão e reprovação. Quando se trata de uma experiência séria, a EAD reproduz regulamentos e critérios da universidade. Ou seja, o aluno tem que compor uma pontuação, cumprir os módulos... Por trás da maioria das reprovações está o equívoco do estudante de que a EAD é um modelo que vai facilitar a vida dele, garantir a sua aprovação de qualquer forma. Ele não tem noção das demandas que a EAD vai gerar.
Os altos índices de evasão ainda pesam contra a modalidade. O que está por trás disso?
Outro problema muito comum, enfrentado por boa parte dos alunos que se inscrevem em cursos de EAD, é ter que superar deficiências técnicas. As pessoas partem da suposição equivocada de que o Brasil já está coberto por uma boa rede de energia elétrica, uma rede eficiente de telefonia... O que não é verdade. É complicado, por exemplo, pensar em EAD sem uma boa conexão de banda larga, por exemplo. Às vezes, o pólo emissor do conhecimento tem o domínio, mas o pólo receptor, não. Sofre com insuficiências técnicas, assim como o aluno em sua casa. Diante dessas dificuldades práticas, alguns desistem... Por isso mesmo, há cursos que têm um semestre de Informática, não só para os alunos saberem navegar na plataforma, mas também para capacitar os tutores...
Sobretudo durante os oito anos de governo de Fernando Henrique Cardoso, o Brasil foi palco da expansão desenfreada de instituições privadas com ofertas de cursos superiores, muitas vezes sem maior compromisso com a qualidade. O país corre o risco de experimentar algo semelhante no campo da EAD?
É preciso ter cuidado com essa mercantilização da EAD, com o risco de uma expansão sem qualidade. Essa modalidade, diferentemente do imaginário popular, supõe um alto nível de investimento, com instalações adequadas e corpo bem treinado. Na verdade, ela compreende a reprodução dispersa de um ambiente universitário.
E isso tem sido respeitado?
Tenho visto muitos pólos sem sala de estudo, sem bibliotecas, sem uma ambiência universitária, laboratórios ou tutores especializados. Eles costumam ser muito generalistas. Visitei em Roraima uma instituição onde três ou quatro tutores atendiam a todas as disciplinas dos vários cursos oferecidos. Ora, eles são incapazes de tirar uma dúvida específica de um estudante. Se o aluno não consegue, via e-mail ou telefone, contactar o conteudista na matriz, vai ficar com aquela dúvida em aberto. Não vai conseguir absolutamente sair daquilo. Há, por parte de algumas instituições, uma falsificação da aprovação.
Como isso ocorre?
Muita gente está aligeirando a avaliação dos alunos. Presenciei, recentemente, uma universidade de grande porte oferecendo cursos em que avaliava os conhecimentos em cinco disciplinas diferentes, dadas num semestre, com uma única prova presencial de dez questões de múltipla escolha. Isto é, duas questões para cada disciplina. E vi esse tipo de prova medíocre em cursos nas áreas do Direito, Engenharia, Pedagogia, e até em Saúde. Não é por acaso que o MEC vem fechando diversos cursos.
Em suas viagens pelo país, na função de avaliador, o que viu de melhor e de pior nas experiências de EAD?
O que há de mais genial é quando o oferecedor do curso EAD faz convênios com faculdades ou universidades bem instaladas. O aluno tem a especifidade da sua modalidade de ensino, mas vivendo num ambiente universitário, numa profusão de conhecimento, que sempre enriquece o chamado currículo oculto. No Cederj, por exemplo, o pólo é visto como embrião de um centro universitário no município onde ele se instala. As piores experiências são aquelas nas quais o indivíduo que comprou o franchising não tem cuidados, sequer sabe o que é uma universidade. Tudo acontece em instalações precárias até mesmo para uma escola do ensino básico.
Do ponto de vista social, qual é o grande trunfo da EAD?
Falando do Cederj, que funciona com oito pólos espalhados pelo estado: ele é importante do ponto de vista estratégico, pois permite a formação dos jovens sem retirá-los de suas cidades de origem. Isto é, promove a formação de inteligências e o desenvolvimento local, no interior. Determinadas cidades de Minas Gerais, por exemplo, acabam esvaziadas pela convergência dos estudantes universitários para centros de formação tradicionais, como Juiz de Fora e Ouro Preto, num processo que buscamos reverter no Rio.
Edição: Jorge Ramos | Fonte: Folha Dirigida, 13/08/2009 - Rio de Janeiro RJ

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